sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Missão humanitária, humildade e generosidade ou o exemplo de médicos cubanos em Melgaço no Marajó.

Melgaço, no Marajó.Pará, tem o pior IDH - Índice de Desenvolvimento Humano do país, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, divulgado no final de julho. São 24 mil habitantes, dos quais 12 mil não sabe ler e nem escrever, apenas 681 pessoas frequentam o ensino médio, saneamento é zero, saúde é rarefeita e  internet só de vez em quando e apenas por celular. O melhor de Melgaço é o povo, as pessoas, atestam  Maribel, Oyainis e Maribel as três médicas e o médico cubano Orlando que estão morando e trabalhando no município marajoara desde 21 de setembro, há quase 3 meses. Eles integram o programa audacioso e certeiro "Mais Médicos", que leva assistência e médicos a municípios carentes e vulneráveis. Ponto pro Ministério da Saúde e pra presidenta Dilma Rousseff.

Se o povo é o melhor de Melgaço, o pior é a água. Ribeirinho, Melgaço não tem água tratada e nem saneamento básico. Isso gera micoses e contaminações genitais. Há gravidez muito precoce e um índice alarmante de hipertensão que atinge muitos jovens, resume o quarteto médico cubano que atende  24 pessoas, no mínimo,todo dia em Melgaço, de segunda a sexta. Com a consulta média de 30 minutos, salvo situações mais complicadas e que exigem mais tempo. Em todas as consultas, a medicina preventiva em ação: tratar a água com hipoclorito de sódio, ferver a água, só pra citar um exemplo.

Pobreza e generosidade - Quase a metade, 48% da população de Melgaço é pobre, aponta o  Mapa da Pobreza do IBGE publicado em 2003 Grande parte da população do campo tem remuneração de R$ 71,50, fazendo com que as famílias na zona rural sobrevivam, em média, com R$ 662 por mês - menos que um salário mínimo. As distâncias são grandes e se leva até 15 dias pra cruzar o espaço de mais de 6 mil quilômetros.Com toda toda essa adversidade, o povo de Melgaço é acolhedor e generoso, garantem as médicas e o médico cubanos.

15 horas de barco -Em português entrevistei as três médicas e o médico ontem (19.dez) à
Orlando, Maribel Hernandez, Maribel Seborit e Oyainis.
noite, em Belém. Na capital, fizeram um treinamento  na área de saúde e retornam segunda-feira 23, bem no período de recesso natalino. De Melgaço a Breves, uma hora de barco e de Breves a Belém, mais 14 horas. Ao todo 15 horas pra chegar em Belém, atravessando a baía do Marajó.  Maribel Morera Saborit, Oyainis Santos Diaz, Orlando Penha e Maribel Hernández, médicas e médico cubanos se conheceram não em Cuba, país em que nasceram, estudaram, se formaram, casaram, tiveram filhos e trabalharam. Foi em solo brasileiro, em Brasília, que os quatro se encontraram pela primeira vez, em agosto. Agora trabalham em Melgaço e lá ficarão por 3 anos.

Maribel Hernandez
9 anos de estudo -Nem a imensidão de água da baía do Marajó, o calor ou as travessias de barco até as comunidades assustam o quarteto médico cubano. Os quatro trabalharam em missões humanitárias na Venezuela e na Bolívia. Estudaram os nove anos da formação de medicina cubana: 6 da medicina geral e mais 3 da medicina integral, algo semelhante à residência médica brasileira, em que a especialização é feita juntamente com trabalho prático. E os quatro trabalhavam em Cuba. Maribel Saborit
tem 21 anos de profissão. Maribel Hernanez, 19 anos. Oyanis, 8 anos e Orlando, 22 anos. Cuba orientou como critério de participação  no programa Mais Médicos, o mínimo de uma missão humanitária.Orando esteve no Paquistão e Venezuela. Oyainis, na Venezuela. Maribel Saborit e Maribel Hernandez, na Venezuela e Bolívia. Além dos 9 anos de estudo, atuação em uma missão humanitária por 3 anos.

Um médico em casa? -Embora o quarteto fale num bem compreensível portunhol, indago se não falarem bem o português fez com que algum paciente deixasse de entendê-los. "De jeito nenhum diz Oyainis. A gente olha pra eles, conversa e se entende. Fazemos um amplo interrogatório, anotamos, fazemos exames físicos completos". E Maribel Saborit completa: "o povo é muito acolhedor, generoso e agradecido. Fomos a uma comunidade ribeirinha, fizemos travessia de barco e na casa de um senhor diabético de 86 anos ouvimos, depois do exame: 4 médicos aqui, quatro médicos me visitando em casa, meu Deus posso morrer feliz. Nunca tinha visto um médico"!

Sem essa de dr, dra - Fico surpresa quando me dizem que se apresentam aos pacientes como Maribel, Oyainis, Orlando. Assim, sem dr., dra, termos que aqui no Brasil são acrescidos à profissão de médicos. Maribel Saborit ri e me diz: "por que dr., dra? Somos iguais, só tivemos mais chance de estudar, ter uma graduação. Mas nossa identidade é a mesma de quando nascemos".

Maribel Saborit
Nem açaí e nem farinha - Como a jornada de trabalho em Melgaço é de 40 horas semanais, igual a Cuba, pergunto o que fazem no final de semana pra driblar a saudade de casa, já que as famílias ficaram em Cuba. "Lavamos e passamos nossas roupas, limpamos nossos quartos, lemos, entramos na internet pra passar correio eletrônico, descansamos". E Orlando informa que em julho vão de férias a Cuba.
Os quatro me contam que Belém e Melgaço são "mais quente que Cuba", mas isso não atrapalha. Gostam da comida à base de peixe, frango, carne, arroz, feijão. Só açaí e farinha não faz parte do cardápio deles. "Muito forte o açaí" diz Maribel Saborit sorridente. Eu afianço a elas e ele que não sabem o que estão perdendo. E rimos todos.

Internet, problemão - O contato com a família é via e-mail, pois falar pelo celular é muito caro.  Cada um tem um tablet 3G, que faz parte dos equipamentos do Mais Médicos. E eles compraram um pacote basicão da Vivo, "mas os créditos somem muito rápido", se queixam. Como falar por telefone é caro demais, sobra conversar por e-mail na internet do celular.
Eu digo a elas e ele que quem mora  e luta na  Amazônia quando vara uma notícia pro mundo, rompe o cordão sanitário do isolamento em que nos encontramos. O acesso à internet poderia ser uma forma de ajudar a romper esse cordão, mas temos o pior acesso de todas as cinco regiões do país e no Marajó, o pior acesso do Pará. Estamos ilhados, portanto.

Oyainis Santos.
Rendimentos compartilhados - Afinal, o que vocês ganham de salário fica com vocês ou vai pra família, indago? "Parte fica conosco, parte vai para nossas famílias e outra parte vai para o nosso governo, para ajudar o nosso povo cubano, me diz Maribel Hernandez. Mas o que ficamos é suficiente para nos manter, para lazer. A prefeitura de Melgaço paga nosso alojamento e esse é muito bom: tem um quarto para cada um de nós, com banheiro, cama, ar condicionando. Temos mais que suficiente", fala Maribel Saborit. E Oyai
nis completa: "a saúde em Cuba precisa da ajuda de todos nós, porque o país sofre um embargo econômico que é muito doloroso para nossa gente. Então, a ajuda precisa vir de nós, cubanos e de nossos aliados".

Faz parte da nossa formação retribuir - A conversa vai chegando ao fim, pois há várias pessoas chamando o quarteto médico cubano e querendo tirar fotos, indagar, conversar, rir junto. E eu faço a última inquirição: o que fez vocês saírem de Cuba e vir pra Melgaço? E Maribel Saborit diz": olha, faz parte da nossa formação ajudar países e pessoas mais necessitadas com nosso conhecimento que foi dado de forma coletiva e gratuita. Só estamos retribuindo".

Encerramos a conversa e eu fico matutando que grandeza é essa de Cuba  e do seu povo que tanto tem a nos ensinar! Se eu conheço quantos médicos do meu país que fariam algo semelhante aqui mesmo. Em janeiro vou a Melgaço numa caravana formativa da Fetagri/CUT no Marajó. Quero rever meu novo quarteto camarada e amigo e conversar com o povo atendido pelas médicas e pelo médico cubanos. (V.P)

E só finalizando mesmo: fizemos uma pequena homenagem às 3 médicas cubanas e ao médicos cubano ontem à noite na formatura de encerramento do curso de Formação de Formadores promovido pela Escola Chico Mendes da Amazônia e da qual participamos 46 pessoas, de todas as CUTs da Amazônia.

Oyanis Santos, Maribel Hernandez, Maribel Saborit e Orlando Penha; Médicas e médico cubanos em Melgaço´. Foto Herbson Silva.

O porto de Melgaço.Marajó.Pa (Foto Eunice Pinto.Ag.Pará)
Oyainis, eu, Maribel e Maribel.

Oyainis, Maribel, Zuleide, Maribel, Thalita e Maria do Carmo: turma da CUT.Pa com médicas cubanas.
Com a companheirada cutista, da saúde, bancária, das artes domésticas e samba.

No centro, de camisa amarela, o compa Serginho Trindade com o quarteto médico cubano.

Na hora da entrevista, o clique verde.

7 comentários:

Anônimo disse...

Vera,
Pelo que pude perceber,SOLIDARIEDADE, é parte integrante do caráter desses profissionais. A meu ver, esse é o grande diferencial do programa, que espero tornar-se uma política pública e com a efetiva participação dos profissionais brasileiros.
Parabéns pela matéria, que precisa ganhar asas na amazônia e no Brasil.
Beijos,
Manolo

Vera Paoloni disse...

Manolito,

eu me emocionei muito com a generosa e gigantesca grandeza dele e delas.

bjs
verita

Anônimo disse...

Vera,
Esta é uma coisa que falta ha muitos dos nossos governantes. A ternura que Che pregou esta presente na mente no coração dessa gente. Que bom termos tido esse privilégio.

abs,
Manolo

Unknown disse...

Não conhecia teu blog e tomei conhecimento do mesmo através do blog de Altamiro Borges.
Amei essa matéria e doravante estarei aqui "fuçando" em teu/nosso espaço. Não contive as lágrimas quando lia tuas considerações a respeito dos profissionais cubanos. Obrigado cubanos. Obrigado médicos cubanos. Obrigado Cuba.
Graças a vocês, entro em 2014 ainda com esperanças na humanidade.

Vera, se tiveres tempo, dá uma olhadinha nessa matéria que relata um fato acontecido aqui em minha cidade (Feira de Santana-BA.):
http://g1.globo.com/bahia/noticia/2013/11/apos-suspeita-de-dosagem-excessiva-medico-cubano-e-recebido-com-festa.html.
Abraços e muita paz, saúde e energia para continuar nos brindando com tuas pérolas.

Vera Paoloni disse...

Querido comentarista que conheceu esta matéria através do blog do também querido Miro,

vem mais vezes e obrigada pela visita.
abraços
vera

Airora Conor disse...

Os desesperados do DEM, já têm notícia de pedido de asilo político de médica cubana. Ora vejam... O que temos aqui no teu Blog Verita, não condiz em nada com o pretenso furo de reportagem dos babacas. O que vemos aqui é gente culta e inteligente e cheia de solidadriedade. Viva Cuba e seu povo! Viva o Ministro Padilha, futuro governador de SP !

Anônimo disse...

Com a licitação para internet 4G na frequência de 700 hz, que o Governo Federal fará agora em agosto, o serviço melhorará muito. Com certeza vai tirar esses municípios do quase
isolamento.

JR Negrão

 
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